Casa
(Dir. Letícia Simões. Brasil, 2019)

Nos primeiros minutos de Casa eu me dei conta de que estaria ali para assistir, nos próximos noventa e quatro minutos, a exposição de sentimentos e relações muito íntimas, as mais íntimas. De cara fiquei logo assustado, acontece que eu conheço Letícia (a diretora) pessoalmente, e ver e ouvir aquelas histórias que eu ainda não tinha acessado foi um impacto. Eu, e acho que as pessoas que estavam na sala do cinema, não estávamos prontos para ver um filme tão pessoal, mesmo sabendo a sinopse. Normalmente esses filmes confessionais não conseguem ser completamente sinceros, muitas vezes atingindo um nível de egomania irritante.

Mas não é o caso de Casa. Nas primeiras imagens captadas, você vê que estar ali é um incômodo para aquelas pessoas. Ninguém está ali para aparecer ou como consequência de um ego absurdo. Aquelas duas mulheres no carro estão ali para expurgar sentimentos. Para abrir os “Arquivos Implacáveis” e conseguir lidar com as coisas que estavam guardadas por uma vida inteira. Letícia inicialmente volta a Salvador, uma cidade que ela odeia, para fazer um filme de libertação. E de cuidado, com uma mãe Heliana que está passando por uma crise depressiva fortíssima e com sua avó Carmelita, que já está muito idosa.

Sua história pode ser extremamente pessoal, mas naquele microcosmo da família de filha, mãe e avó há relações e situações comuns à uma parte imensa da população. A maioria das famílias não são famílias de comercial de margarina e o filme o tempo todo nos lembra disso. A câmera indiscreta, que parece que foi escondida nos cômodos, nos mostra coisas que não deveríamos estar vendo.

A mágoa guardada por Heliana para com sua mãe Carmelita é muito forte. Proporcionalmente ao carinho de Letícia pela sua avó. E são dessas relações complicadas e ambíguas que são formadas as famílias. Nunca vão ser sentimentos limpos e muito menos racionais, nossa relação com as pessoas que estamos conectados desde o nascimento não são maniqueístas. E nem devem ser. Pouco antes de morrer, Carmelita aparece em câmera na cena mais sentimental do filme expressando sua preocupação com a filha depois que ela for embora. Pede a Letícia para conversar com sua mãe, pedir para ela se abrir. E quando Carmelita morre, e depois de uma semana Heliana, consegue chorar. É catártico o sentimento dela. Mesmo com toda mágoa que existe naquele círculo, o carinho ainda está lá. Nas palavras dela é possível ver uma mistura de alívio e tristeza, a morte tem esse poder de assustar e revelar coisas que nós não queríamos sentir.

Depois do filme nunca mais vou ver Letícia de outro jeito. Claro que não posso falar por ela, mas acho que era isso que ela queria. Ser vista à sua maneira, com a sua História contada por ela mesma. A História da família está preservada por Heliana no “Arquivo Implacável”, um armário de fotos e documentos que nunca foi aberto e que ela não tinha interesse de abrir até a insistência de Letícia. As cenas filmadas nos últimos anos são intercaladas com essas imagens do Arquivo com narração de Letícia contando a História da sua mãe, da sua avó até chegar na sua própria. Essa é a alma do filme.

No fim, na última conversa do filme entre Letícia e sua mãe, Heliana pergunta “e agora? o que a gente faz?”, querendo saber sobre o filme. Mas também sobre a vida. “E agora a gente corta e vive” responde Letícia. Sobre o filme, mas também sobre a vida. A gente corta e continua vivendo, na vida e no cinema.