​The Lighthouse /
O Farol
(Dir. Robert Eggers. EUA/Brasil, 2019)

Quando nos defrontamos com as raízes estéticas do expressionismo alemão, sobretudo as bases que fizeram desse movimento uma potência em intenso contato com as vanguardas do século XX, podemos lançar luz para o comprometimento do sujeito com o imaginário fantástico. Mais precisamente, a ênfase aqui se dá, na implicação de uma verdade individual que se torna universal, de algo pequeno que cresce numa escala ascendente: o ínfimo das coisas e o sublime. Dito de outro modo, o cinema da República de Weimar foi o ponto de partida para as vozes do inconsciente, isto é, uma elevação de uma carga psicodramática para o cinema. Nesse sentido, a luz, para a estética expressionista, será essencial no que tange à alternância de um vigoroso movimento de intensidades, como se a imagem-movimento estivesse sempre em sua direção, num eterno retorno.

​No limiar de O Farol (The Lighthouse, 2019), de Robert Eggers, um monumento incide enquanto átimo. Essa presença nos diz, logo nas primeiras cenas, que a luz é o próprio movimento, que diante da paralisia das coisas, neste lugar desolado, a luz promoverá mudanças, como se a narrativa estivesse estritamente ligada à manutenção desse farol. Assim que o jovem Ephraim Winslow chega ao casebre, encontra um bibelô em formato de sereia. Esse objeto frívolo, que nos remete a algo de pouca importância – daí a relação dos bibelôs com o desinteresse, a decoração descomprometida – ganhará, ao longo da narrativa, uma extensão crescente. Na verdade, essa é uma relação crucial para o expressionismo, vem da ordem divina dos objetos; ou seja: o ínfimo das coisas poderia ser entendido quando a própria materialidade se expande e toma forma no espaço, daí as famosas distorções, as deformações da realidade, a psique e as projeções de sombras que faz crescer Nosferatu.

​Thomas Wake, um velho e experiente faroleiro, junta-se ao novato Ephraim Winslow com o objetivo de cuidarem desse monumento, sobretudo da incidência dele para as navegações. À medida que os dois se envolvem em desentendimentos e conciliações, promovidas ora pelas relações de trabalho, ora pelo álcool, é importante que se perceba a duplicidade que cada personagem assume, como que uma personalidade fugidia que faz da espera uma temática importante. Espera essa que está intimamente ligada à estagnação, em meio ao mar. O desespero, que vem através da espera, indica não só esse ato, mas também a paralisia, sobretudo quando percebemos Winslow distanciado da luz. A despeito da relação conturbada entre personagens, a assertiva beckettiana se desvela não só numa demora, envolta em diálogos sombrios, muitas vezes absurdos, mas ainda no próprio espelhamento da tirania de um Pozzo, que arrasta Lucky com uma corda no pescoço. Logo, esse personagem maneja a linguagem sob o signo de uma vociferação: ora ele é um deus, ora um cão.

​A luminosidade que o farol projeta figura-se na narrativa, enquanto um combate autoexplicativo sobre luz e sombra: luz na torre, sombras no que está abaixo dela. Nesse sentido, arrisco dizer que Eggers talvez esteja apontando para o óbvio, a fim de, em seguida, fazê-lo desabar. Criar uma imagem abissal que entra em contraste nos efeitos presentes no expressionismo, resgatando as potencialidades que as imagens desse movimento iconiza. Vendo-se livre de Wake, e agora imbuído numa atmosfera paranoica, Winslow segue em direção à luz. A queda aqui não é só do personagem, é, também, do próprio farol, não materialmente, é claro, mas enquanto salvação. Como aponta Deleuze, acerca do expressionismo, a queda será “a aventura da alma individual, tragada por um buraco negro”. Nesse sentido, inscreve-se aqui a queda da Margarida, no Fausto, e o último dos homens, em A última gargalhada, ambos de Murnau, sem esquecer da queda de Lulu em A caixa de Pandora (Pabst). Assim, O Farol é construído num maniqueísmo fantástico, ao ponto desse contraste chegar a se transformar em pura ênfase de uma paranoia. Já o movimento da queda é um desejo de posicionar a obra na história do cinema, uma inscrição, talvez uma homenagem.