Linger on Some Pale Blue Dot / Resista num Pálido Ponto Azul
(Dir. Alexander Koberidze. Alemanha/Israel, 2019)
Caranguejo Rei
(Dir. Enock Carvalho e Matheus Farias, 2019)

O circo chegou na cidade. Estranho circo que não tem palhaço, não tem malabarista, só uma trupe de mágicos que nunca aparecem pra fazer seus truques. Preferem o conforto da sala escura.

O céu noturno abriga as estrelas que nos observam, pálidas e frias, complacentes e inertes. Do olhar de uma estrela surge um holofote, acompanhando os passos inconstantes de um vagante pelas ruas de uma cidade deserta e, agora, somos cúmplices, não objeto.

Entra em seu recinto, pronto pra labuta. Não consigo ver seu rosto, nem lhe perguntar como está. Mágico cruel esse com uma câmera ainda mais cruel. Sempre vejo seu torso ou seu trabalho, mas nunca seu rosto. Um café que esfria mas não é tomado, um cigarro que queima. A automação que faria William Morris estremecer: um trabalho sem gozo.

O padeiro solitário parece alheio a qualquer coisa senão a farinha e seu tratamento. E o mágico põe a tela a girar. Nos convida a um plano onírico ao som de uma orquestra. Eu aceitei o convite. Não pude resistir ao mágico.

E então anuncia-se a tragédia. Os urros do mangue estremecem uma pacata capital focada no progresso. Uma dupla de mágicos toma a tela. Seu truque é a pungência. Um horror ligeiro que afoito a destruir se esquece do contrapiso.

Uma transformação dolorosa, marcada pelo mesmo presságio em constante repetição. Belo e grotesco, esmero artístico notável. Uma tensão tátil que se amontoa e promete. Uma infestação na capital e no corpo de quem a destrói. A degradação e a degeneração. A dor da constatação: não há volta.

A canção do mangue se torna então inevitável e o chamado é atendido. Esse não podia ser rejeitado. De volta à lama, um resgate corporal. Despido de calma, a caminhada é difícil. Cena do mangue, escuridão e lama. A cidade os cerca e os isola. O encontro com o algoz, entretanto, se revela efêmero. Uma promessa não cumprida. Houve comunhão ou confronto?

Pensando bem, acho que já vi esse truque antes.