The Lighthouse /
O Farol
(Dir. Robert Eggers. EUA/Brasil, 2019)

Há mais de cinquentas anos após o lançamento do clássico Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, víamos em tela um monólogo que marcaria uma era – quiçá elevaria-o ao status de atemporal do populista de direita Porfírio Dias, vivido por Paulo Autran, que assim dizia, “Como feras famintas, eles desejarão sempre mais e mais, até o seu próprio sangue. Eles querem poder!”, se referindo ao povo. Em seu discurso fílmico, Glauber traz à tona não só as relações de poder relacionadas à política, mas também relacionadas ao gênero masculino e a construção do papel social do que é ser homem. Afinal, desde criança somos bombardeados por regras que incitam as mulheres a recuar e os homens a saírem de casa e buscarem mais, sempre mais. O que não for deles, será. Eles tomam. Herança do patriarcado.

Num tom metafórico, pesado e sufocante (em formato 1.19:1, basicamente uma tela quadrada), Robert Eggers (A bruxa, 2016) cria no seu mais recente filme, O Farol (2019), uma relação muito próxima à desenvolvida por Rocha em 1967. No entanto, gritando influência do expressionismo alemão (preto e branco, sombras bem marcadas, iluminação, enquadramento, as atuações um ou dois pontos acima do naturalismo regular ao cinema) e navegando nas mais diversas referências aos clássicos da história do cinema, desde O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, passando por Nosferatus (1922), de F. W. Murnau, chegando aos também clássicos Um corpo que cai (1958) e Os pássaros (1963), ambos de Hitchcock, mas, não obstante, indo para a literatura com Lovecraft e seu Cthulhu. É um filme que teima em homenagear suas referências. Além da riqueza estética e das alusões, Eggers desencadeia mais um título para o recém “pós-horror”. Ao fazer isso, também deixa uma mensagem velada. Não será óbvio. Para descobri-la você terá que se exercitar.

A partir disso, ao mergulharmos no filme, trazendo a dinâmica do poder da política para o gênero, e para a rotina dos dois faroleiros, Tom Wake e Ephraim Winslow (Dafoe e Pattinson, respectivamente), que precisam dividir a função de plantonista, percebemos que é no convívio deles que se destacam os males do homem da contemporaneidade. Enquanto um reprime o que sente o outro, deságua seus problemas na bebida. Se há tensão sexual, há repressão. Se há prenúncio de algum envolvimento, por mais hipotético que seja, há também a dúvida: Winslow está fugindo de um crime passional? São essas as lembranças que o perturbam e por isso a obsessão na única figura feminina? Suponho que sim. O ápice da narrativa revela também o ápice da aceitação de uma relação carnal, antes condenada. A vergonha do machista moderno que se entrega à morte, aos pássaros, para evitar aceitação. O resultado do famoso “se meu filho for gay eu mato”. A nós resta a função de endossar o coro, “até quando suportaremos?”, da mesma forma que Paulo Martins, personagem vivido por Jardel Filho, no supracitado Terra em transe.