Linger on Some Pale Blue Dot/
Resista num Pálido Ponto Azul
(Dir. Alexander Koberidze. Alemanha/Israel, 2019)

Carl Sagan, um dos maiores astrônomo da história recente, trouxe diversos questionamento no livro “PÁLIDO PONTO AZUL – UMA VISÃO DO FUTURO DA HUMANIDADE NO ESPAÇO”. Se você já conhece a obra, ao fazer um paralelo com o nosso ecossistema cultural, é possível perceber a singularidade que os reúne. Assim como o autor questiona no livro se temos algum privilégio em relação a outros corpos celestes, o primeiro filme da mostra competitiva de curtas internacionais, Linger on Some Pale Blue Dot / Resista Num Pálido Ponto Azul (2018), de Alexandre Koberidze, faz com o seu público, ao usar dos recursos de iluminação e edição para focar onde ele gostaria. Koberidze, de forma literal, leva as ideias de Susan Sontag à máxima potência: é a partir da escolha de um quadro, ou enquadramento, que escolhemos ignorar todo o resto. Ou seja, a gente ignora a tela e acompanha o que o ponto de luz quer nos dizer.

E aí, o show começa! O espectador passa a caminhar por duas possíveis narrativas, e, para entendê-las, é necessário se localizar. Ou seja, sabe quando a gente vai ao cinema e faz aquele pacto “vou, pelo menos por duas horas, fingir que acredito no que você está me mostrando. Vou me suspender da realidade por um momento e ficar aqui, só observando”. Pronto. Esse pacto aqui depende da bagagem social e da condição de terceiro sentido do voyeurista. Afinal, neste filme somos todos voyeurs, e tudo bem. Esse trato já fora firmado por ambas as partes. Estamos de acordo. No entanto, ao falar sobre o terceiro sentido, teoria trabalhada ao longo da história do cinema por Eisenstein, numa sequência o filme assinala o carácter decisivo dele, os espectadores irão se dividir entre duas narrativas: poesia e plasticidade. Afinal, o belo e poético, aquele que pode ser contemplado, precisa daquele que se vista e suba no palco, seja ele qual for.

Mas, e aí, pra onde vamos? Enquanto música e poesia se entrelaçam nas “coisas” que a câmera escolhe mostrar, o homem segue sua rotina trabalhando duro, dia-a-dia. Pra ele, levantar antes do galo cantar não é nada poético, mas, para nós espectadores sim. A gente nem percebe a luta daquele homem invisível, sem nome ou personalidade. E é aí que o filme cresce ao questionar, assim como Sagan faz no livro, qual deve ser nossa postura perante a imensidão do universo? Faz sentido investir em missões aeroespaciais incertas enquanto ainda somos incapazes de solucionar os problemas que nos afligem todos os dias? Ou melhor, qual deve ser nossa postura em relação ao outro? Faz sentido estetizar a miséria? A rotina alheia? O flagelo? Não que o filme coloque o homem nessa posição, mas, em grande escala. Faz sentido? O que você viu é poesia ou trabalho duro? São esses os questionamentos que o filme deixa.