Last Night I Saw You Smiling / Noite Passada Te Vi Sorrindo
(Dir. Neang Kavich, 2019)
Cinema Contemporâneo
(Dir. Felipe André Silva, 2019)

Como vou mostrar as ruínas onde me encontro? Essa crítica é, na verdade uma defesa. Seria de uma honra enorme para mim que você tomasse um tempo do seu dia para ler.

Em Dois Dias, Uma Noite (2014), a personagem de Marion Cotillard luta contra sua depressão e ansiedade enquanto suplica aos seus colegas de trabalho que não votem por sua demissão. Em Noite Passada Te Vi Sorrindo um representante do governo está em campanha inversa: com um sorriso educado e voz mansa ele segue de apartamento em apartamento questionando os moradores sobre o dia em que vão desocupar seu lares.

Em Recife, um cineasta exibe uma fotografia. A narração não é dele. A princípio a imagem não está muito definida. Ele proclama como crianças inteligentes demais super protegidas lhe deixam receoso que haja um tipo específico de gente na vida delas.

A história do Prédio Branco — lugar onde Noite Passada acontece — pode ser vista, de certa forma, como a história recente do Camboja. O local é um conjunto de apartamentos no país do sudeste asiático construído nos anos 60 pouco tempo após à sua independência da França. O Reino de Camboja também sofreu repercussões da guerra entre Vietnã e Estados Unidos. O partido comunista local — Khmer Rouge — havia conquistado o poder através da derrubada do governo anterior — aliado dos EUA, durante a então guerra fria — e um conjunto de ações levou ao genocídio de aproximadamente 25% da população. Esses movimentos afastaram os moradores do Prédio Branco até então, em sua maioria artistas e funcionários públicos.

Em Recife, a sensação de desconforto se intensifica. “Dia desses vi um curador de cinema falando sobre o fenômeno dos documentários em primeira pessoa nos últimos anos, falando de forma negativa no caso. Não vou lembrar de nada do que ele disse, com muitos detalhes mas a princípio concordei e ainda siga concordando apesar de estar sendo hipócrita. É por que não tem outra pessoa que possa contar minha história, sabe?”

O Vietnã então se tornou o refúgio dos que fugiam do genocídio, longe dos campos de trabalho instituídos para o desenvolvimento agrário imaginado pelo partido comunista. Camboja e Vietnã haviam sido aliadas durante a Guerra do Vietnã, contra os Estados Unidos, então havia conexão sociocultural suficiente entre os dois poderes soberanos. Apesar da cooperação, a liderança do Khmer Rouge temia que o Vietnã viesse a se tornar uma potência na região, potencialmente absorvendo Camboja em seu território. Um conflito eclodiu entre os dois países e, em 1979, o Vietnã invade Camboja. Alguns dos moradores do Prédio Branco retornam à ele com o fim da guerra — junto à okupantes, termo anarquista análogo ao squatters. Desde então, a percepção do prédio foi gradualmente sendo relacionada à pobreza. 2500 pessoas residiam ali. Um condomínio autossuficiente onde residiam várias famílias, com sua própria escola, lojas, restaurantes e ONGs. Além disso, um próspero mercado de drogas e oferta de salões de massagem. Uma comunidade, construída em quase 40 anos, acostumada a lutar por seu espaço contra a gentrificação. Em 2017, porém, uma empresa japonesa comprou o espaço. Os moradores deveriam sair.

Em Recife, “eu não quero sair desse lugar que me jogaram. (…) Preso eternamente numa foto. Que coisa. Não é a primeira vez que eu tento contar a história dessa foto. Só quem pode contar essa história sou eu. Mas não consegui. Talvez eu tenha conseguido, mas quem conta não sou eu, é o filme. O filme em primeira pessoa.”

Me lembro de cada uma das seis mudanças que fiz desde que cheguei à Recife. Tudo que redescobri enquanto mais uma vez esvaziava um armário e encaixotava itens que haviam criado meu afeto com aqueles lugares.

Neang Kavich registra os últimos momentos de seus vizinhos e sua família no prédio em que cresceu. Ele não se aproxima deles quase que com respeito, permitindo a essas pessoas processar a perda de seu lar enquanto ocupam esse espaço pela última vez. Algumas lhe oferecem conselhos: “conhecimento é como ter dinheiro.” Outras lhe oferecem avisos: “Nunca mais o veremos. Quando ouvirmos seu nome, lembraremos. Mas nunca mais o veremos.” Outras lhe oferecem lamentos: “Como vamos protestar? Somos idosos agora.” A tia do diretor durante seu último dia de residência está em trabalho de manufatura, fabricando sacolas de presente. A indenização não seria suficiente para achar um novo lugar para morar. Uma comunidade de 40 anos que ainda teme o poder. A frieza simpática. A barbárie civilizada. Uma escavadeira mastiga os restos do prédio. Kavich ainda está lá dentro, filmando, mantendo firme sua câmera até o último momento.

Eu, também em Recife, não conhecia muito bem a história de Camboja. A de Recife eu já havia visto em um post, mas há algo de inquietante no audiovisual.