The Lighthouse /
O Farol
(Dir. Robert Eggers. EUA/Brasil, 2019)

Acho que poucos filmes conseguem se alinhar tão naturalmente ao gênero da comédia tendo uma estética tão sombria. É nesse chiaroscuro temático (e visual) que habita O Farol. Apesar de estar presente num nicho tão específico, o filme pode ter diversas interpretações, e essa é boa parte do debate na internet sobre ele. “O que diabos está acontecendo ali?” e muitas respostas interessantes, ou bobas, podem ser dadas. Desde um filme sobre casamento até a possibilidade dos dois personagens (vividos por Robert Pattinson e Willem Dafoe) serem a mesma pessoa.

É um filme sobre estar de cara com algo que não se entende e com as obsessões que se criam a partir disso. Pattinson, o faroleiro novato, passa a ver coisas que ele não consegue entender e nós muitas vezes não vemos, o olhar dele que é o veículo de entendimento do que ele está vendo, a câmera nunca mostra o objeto do seu olhar. Ele se depara com o desconhecido o tempo todo e essas coisas que ele não entende são motivos de desejo, o personagem tem um apetite sexual que só vai ser aplacado com o entendimento dos mistérios que o cercam. Esses mistérios passam a ser canalizados pelo seu desejo, e a Luz do Farol é um deles.

Só quem consegue satisfazer os próprios desejos é Dafoe, o faroleiro experiente, que compartilha essa obsessão com a Luz. Ele trata a Luz como se fosse uma mulher, sua mulher, só ele pode vê-la e só ele pode se esbaldar em sua força e seu calor. E isso ele o faz, todas as noites enquanto Pattinson olha lá de baixo. Curioso. Desejando ocupar aquele lugar. Num filme em que a escuridão é a norma, a Luz é o fetiche.

No começo os dois têm espaços bem estabelecidos pela cena, sempre alguma coisa separando os dois. Um pilar, uma vela. Os espaços estão sempre muito bem definidos. Quando passam a ter uma relação mais íntima, quase erótica, eles invadem o espaço um do outro, e assim começam a se confrontar diretamente. A relação de poder está definida, na primeira metade Dafoe tem a vantagem, ele é o mais velho, mais experiente. Domina, manda e desmanda no aprendiz e tem demandas praticamente impossíveis de serem cumpridas, além de se utilizar de táticas como o gaslight para dominar o homem mais novo. É uma relação de bondage em que só um deles tem acesso ao prazer, só ele tem a Luz.

Até que no momento de virada Pattinson percebe o que seu Mestre está fazendo e não quer mais se submeter, assim os papéis se invertem. No fim ele consegue satisfazer sua curiosidade, seu desejo sexual. Dominando o outro (“Late”) e assim chegando à Luz.

Essa relação de poder no entanto é o que rende a maior parte da comédia do filme. É como se o diretor estivesse ridicularizando aqueles personagens e suas ações, são desejos fúteis que eles querem satisfazer diante da situação em que se encontram. E esse eu diria que é seu maior trunfo, subverter as expectativas de como um filme tão escuro e que numa primeira camada parece ser tão sério ter um humor tão afiado. É cômico porque é ridículo, mesmo numa situação horrível, só o que eles pensam é em sexo e em bebida.

Nessa comédia inesperada dois homens entram numa queda de braço para ver quem é mais forte e quem consegue se satisfazer mais, mesmo quando o mundo ao redor está caindo aos pedaços e outras coisas mais importantes precisam ser feitas para sua sobrevivência. E não são assim todos os homens?