Last Night I Saw You Smiling / Noite Passada Te Vi Sorrindo
(Dir. Kavich Neang, Camboja/França, 2019)
So Pretty
(Dir. Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli, EUA/França, 2019)

Dois filmes que dilatam as possibilidades representacionais aliadas ao documentário e à ficcionalização do cotidiano, Noite Passada Te Vi Sorrindo e So Pretty tratam, cada um a seu modo, de comunidades autocentradas que tentam resistir a um mundo externo interferente e destrutivo. Através de abordagens que se constroem nas fronteiras entre gêneros, os filmes concretizam uma arte da intenção que investiga os espaços cênicos como espaços de persistência e, principalmente, de sensibilidade.

Em Last Night I Saw You Smiling, Kavich Neang acompanha três famílias, incluindo a sua própria, no processo de saída do Prédio Branco em Phnom Penh e constata o impacto que a iminente demolição do edifício provocou sobre esses antigos moradores no Camboja. Os relatos são camadas do resgate de uma história conjunta e neles está assentada toda a tradição oral de reconstituição da memória do prédio e das famílias. Às entrevistas usuais somam-se momentos de observação tão imersivos e transparentes que só são despidos da aura de ficcionalidade quando o documentarista intervém abertamente sobre a cena. Esses breves instantes de suspensão e a consequente sensação de escancaramento do espetáculo cristalizam uma variação de angústias, desconsolo e de esperança permanente daquelas pessoas, mas também o senso agudo de História construída em conjunto e recuperada a pouco e pouco por seus próprios agentes.

Já em Nova York, a juventude queer e trans de So Pretty preserva um cosmos particular de beleza, e o filme lida com a vida cotidiana desses corpos exaltados em sua normalidade. A dinâmica construtiva abarca aqui não só os dispositivos próprios do cinema, mas também a literatura, a performance e a música; todas essas manifestações têm a mesma importância narrativa e naturalmente o foco recai sobre as trocas afetivas entre aquelas pessoas e as sutilezas de suas relações. A narração, a exposição e a musicalização da história articulam uma linguagem interior de dramatização e instalação de arte, de forma que o texto, adaptado do livro So Schön de Ronald M. Schernikau, não tem existência declamativa ou cinematográfica independente dessa potência dos corpos das personagens que, mesmo baseadas em uma obra de ficção, transparecem tal e qual epifanias da realidade.

Em ambos os filmes, o espaço do lar é o espaço dramático por excelência, e é pela investigação desses lugares (panorâmicas de So Pretty ou montagem estática de Last Night…) que as duas obras conseguem transmitir a sensação rica de um pacto de intimidade com o espectador. A câmera é o olho privilegiado que esquadrinha esses ambientes de convivência e se inscreve ora como historiografia da vida privada, ora como crônica das relações interiores que escapam à malha da encenação possível e revelam momentos preciosos das personagens. Aqui, estamos longe das regras tradicionais da narrativa como imersão ou documento puros, mas não menos próximos daquilo que pertence à ordem do real; são outras concepções possíveis que se incorporam e acabam por salientar a urdidura dos artifícios diante das formas já esgarçadas do cinema contemporâneo.