So Pretty
(Dir. Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli. EUA/França, 2019)

Numa entrevista, a diretora Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli fala que So Pretty veio para ela de um local de medo. Medo de não saber como criar espaços seguros para as suas em que se pode existir sem preocupações externas. Na mesma entrevista, Rovinelli fala que está cansada de ver filmes com corpos trans em que a única razão para a existência daqueles corpos naquele espaço é a violência. A intenção é criar esse espaço em que a violência não é a única coisa que pauta a vida dos corpos não priorizados pelo cinema. Uma nova utopia, mas já velha, em que os corpos marginalizados prevalecem e florescem, se divertem, transam, comem, bebem, são ativistas, artistas, músicas, acadêmicas.

Baseado no livro So Schön de Ronald M. Schernikau, um escritor comunista gay alemão dos anos 1980, o filme intercala leituras de trechos do livro com as cenas adaptadas. Transportar dessa maneira um livro de Berlin Oriental dos anos 1980 para Nova Iorque do século XXI se torna natural, a diretora consegue fazer esses sentimentos ressoarem perfeitamente, sentimentos tão diferentes pelos seus contextos históricos e sociais, porém correlatos à sua maneira. Pertencimento, comunidade, afeto, família.

Ela faz disso um cinema lindo. Nas cenas internas a câmera extremamente passiva está ali apenas para pegar um vislumbre da vida daquelas pessoas, cenas do cotidiano e da intimidade. As pessoas ali dentro vivem de uma maneira natural, confortável. Filmado em sua maior parte em super 16mm com cenas complementares gravadas com um celular, o filme tem uma qualidade estética surreal, de sonho. E assim são as utopias, um sonho.

É um filme sobre cuidado. A relação daquelas cinco pessoas não é desprovida de atritos, longe disso, mas o cuidado entre elas é muito maior, supera todas as mágoas. Em uma das cenas uma personagem cuida da ferida da perna de outra, e só ver aqueles minutos em tela onde nada mais importa, apenas a vontade de cuidar da outra é quase uma meditação. Sair do cinema depois desse filme foi muito mais gostoso, como se tudo pudesse ficar bem. A utopia de Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli nos infecta.