Por Renato Souto Maior
Como tem se mostrado ao longo dos programas, mais uma vez a coerência se instaura na escolha dos filmes e temáticas, e juntos, os curtas, elevam ao extremo a idéia pensada e organizada para cada programa. Movimento de Libertação das Imagens é exatamente isto; liberdade concedida a todo o processo, tanto estético como narrativo.

Não é por acaso que o filme escolhido para a abertura da seleção tenha sido
Miraslava (Roberto Santaguida, Canadá), produção pautada na movimentação, livre, de cores, sonhos, desejos e confissões, emaranhados e eficazmente transmitidos como um fluxo de consciência, um jorro lúdico pertencente a um jovem que sonha.
O contraste com a produção anterior surge em
Ouço Seu Grito (Pablo Lamar. Argentina-Uruguai), onde uma imagem preta e branca aparece na tela como um quadro, perfeitamente composto, ao mostrar um homem em uma colina, ao pé de sua casa. Através dessa paisagem pintada a quietude até então generalizada cede espaço para o som ambiente, seguido de vozes e de um homem parado aparentemente sem motivação. Após sua entrada na casa um amontoado de pessoas sai da mesma, e seguem em um cortejo fúnebre.
Debaixo (Dominga Sotomayor, Chile) é uma produção filmada de cima para baixo. O posicionamento da câmera aqui ganha caráter essencial e não apenas estilístico, mas sim narrativo. Um pai, divorciado, espera sua família – ex-mulher, filha e parentes - em uma área de lazer que parece pertencer a um sítio, praia. Logo o título se fará compreender não só pelo uso contínuo da câmera acima do espaço mostrado, mas por explicitar a condição do protagonista abaixo de suas próprias expectativas; a filha que provavelmente prefere o padrasto a ele, sentindo-se insegura e desconfortável na sua presença. A iniciativa espontânea e freqüente de em certos momentos alguns ali presentes olharem para cima cria a sensação de instabilidade, e a olhada para o alto, o céu, revela uma incerteza e busca por segurança por não saberem lidar com determinada situação ali, embaixo, ao nível comum dos outros. O curta segue com excelência ao obrigar os personagens a inclinarem suas cabeças e encararem o céu, como se estivessem esperando um eclipse, ou algo fora do normal; e nesse momento seus rostos aparecem, quase por completo, pois usam uns óculos especiais, como se não pudessem enfrentar sem alguma proteção a imensidão acima de suas cabeças. O único a, por vários momentos durante o filme, fitar o mistério presente sobre ele é o anfitrião, este, melhor situado com seus sentimentos e com a filha, após a passagem do provável eclipse.
Inquestionavelmente o mais intrigante do programa,
Indução (Nicolas Provost, Bélgica) ergue uma trama não linear sobre um filho que observa a mãe em estado de hipnose, atraída e induzida a algo por um negro, aparentemente surgido do nada. Sob uma música tensa e sombria os acontecimentos se desenrolam soltos, onde a não regularidade da movimentação dos personagens e suas ações fazem a diferença, causando impacto e riqueza estética em um filme provocador da mais incerta sensação, por se apropriar tão bem da linguagem proposta.
Após experiência única surge no programa o melhor filme até então,
Viagem À Floresta (Jorn Staeger, Alemanha), cuidadosamente editado, realizado e pensado, provocativo sem exageros e responsável por uma eficiente viagem visual, construída com os mais diversos tons de verde, em uma celebração a floresta, seja ela urbana, solta, presa, domada, paisagística ou morta. Som e imagem se fundem eficazmente, com o movimento da câmera em plena liberdade, a invadir matas, caminhos, até se transformar em abelha e penetrar árvores, troncos, florestas e verde. A integração entre som e imagem confere apuro extraordinário à produção, repleta de analogias e comparações interessantes; uma das melhores retrata uma árvore como pulmão, reforçada pela sonoridade escolhida, ao se ouvir uma respiração genuína.
Procrastinação (Johnny Kelly, Inglaterra) é o ato de não conseguir começar algo, não fazer nada. O uso da animação transmite eficientemente a idéia de procrastinar, atitude não adotada pelo realizador do filme, vide sua qualidade visual e narrativa.
Ninfa (Ken Jacobs, EUA) usa a técnica da repetição de imagens para efeito satisfatório; vale pelo resultado amarrado, até engraçado e coerente.
Réquiem (SunXun, China) se constrói a partir de colagens, sobreposições e momentos animados em uma excitação criativa onde a imagem livre se preocupa mais com sua função imediatista do que a elaboração de uma trama compreensível.
Lágrima Napolitana (Franceso Satta, Itália) é um filme sem graça, sem beleza e sem qualidade. É isso. Mesmo.